quarta-feira, 21 de março de 2018

História da Matemática na educação - 28/03/2018

HISTÓRIA DA MATEMÁTICA NA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA: ESPELHO OU PINTURA?


Cristina Dalva Van Berghem Motta, FEUSP, crisberghem@yahoo.com.br


A História da Matemática como um espelho: A imagem especular do desenvolvimento de um conceito científico nos planos históricos e individuais foi um dos princípios norteadores para a educação baseada na orientação positivista, que via a abordagem histórica da Matemática como forma de manter uma visão conjunta do progresso desta ciência e de apresentar os conceitos em um grau crescente de complexidade, conforme foram se desenvolvendo na evolução da humanidade. Esta orientação exerceu grande influência no ensino da Matemática, principalmente por colaborar na concepção da Matemática como um corpo cumulativo de conhecimentos seqüenciais e ordenados hierarquicamente, que se reflete até hoje na elaboração dos programas de ensino.
O pressuposto fundamental do positivismo é o de que a sociedade humana é regulada por leis naturais, invariáveis, independentes da vontade e da ação humanas. Em decorrência disto aplica-se a mesma metodologia para o estudo das ciências naturais e das ciências sociais. Essas características da filosofia positivista que Auguste Comte (1798-1857) apresentava em seus cursos na França do século XIX agradaram a nova burguesia do período do Império em nosso país, por possibilitarem a conciliação entre ordem e progresso. Entre os engenheiros e os docentes de Matemática das instituições militares brasileiras encontravam-se ex-alunos de Comte, que ao retornarem ao Brasil se tornaram os primeiros divulgadores do positivismo e adotaram o modelo de racionalidade técnica por ele defendido (Silva, 199, p. 216).
Para Comte, o progresso do conhecimento humano se realizaria por meio de três estados: o estado teológico, no qual o homem explica as coisas e os acontecimentos através de seres ou forças sobrenaturais; o estado metafísico, quando há o recurso a entidades abstratas e idéias que expliquem os fatos; e o estado positivo, quando o homem explica as relações entre as coisas e os acontecimentos pela formulação de leis, renunciando conhecer as causas e a natureza íntima das coisas. A sucessão dos três estados se daria em termos individuais e em termos da História das Ciências. Com a “lei dos três estados”, Comte reconhece uma similaridade de etapas na evolução de um conceito no plano individual e no plano da história da ciência. Cria, assim, uma visão internalista e indutivista da história da ciência e estabelece uma subordinação determinista do presente em relação ao passado: a História seria um espelho do que se passou, factual e ligada ao acontecimento em si.
Também podemos perceber a influência dessa visão especular da História da Matemática nas concepções de Piaget & Garcia e na ampliação feita por Brousseau da noção de “obstáculo epistemológico” de Bachelard. Jean Piaget (1896-1980), biólogo, psicólogo, pedagogo e filósofo suíço, escreveu, juntamente com Rolando Garcia, o livro Psicogênese e História das Ciências, publicado em 1982, após o falecimento de Piaget. Neste livro, os autores se posicionam contra uma recapitulação simplista da filogênese pela ontogênese e procuram investigar se os mecanismos de passagem de um período histórico da evolução do pensamento matemático-físico ao seguinte são análogos aos da passagem de um estado genético aos seus sucessores. Piaget & Garcia defendem a tese de que a construção do conhecimento se dá da mesma maneira nos planos psicogenéticos e filogenéticos, através dos mecanismos de passagem. Assim, para aprender Matemática o sujeito teria que reconstruir as mesmas operações cognitivas que marcaram a construção histórica dos objetos matemáticos. O recurso à História da Matemática se apresentaria como uma opção para a busca de conflitos cognitivos que possibilitassem a passagem de uma etapa da construção do conhecimento para outra de nível superior.
Para Piaget & Garcia, a cultura não modifica os instrumentos de aquisição do conhecimento: estes instrumentos fazem parte da esfera biológica do indivíduo e não dependem do meio histórico ou cultural (Radford, 2000, p. 146). Desse modo, é mantida a mesma visão de evolução, previsibilidade, hierarquia e de uma ciência pronta e acabada defendida pelos positivistas. Com isto, apesar de declarar não defender o argumento recapitulacionista, ao fazer a conexão entre a produção do conhecimento nos planos filogenéticos e ontogenéticos, Piaget está implicitamente adotando o “princípio genético” em seus trabalhos.
Sob esta perspectiva teórica, a produção cultural das idéias da Matemática é tratada de uma forma internalista e estruturada, desligada de qualquer contexto, da mesma forma que se desconsidera o condicionamento sócio-cultural no desenvolvimento cognitivo do indivíduo. Esta visão psicologizante também nega a importância das relações entre os sujeitos envolvidos nas relações de ensino-aprendizagem: o sujeito aluno e o sujeito professor, com seus papéis em torno de um saber. Em Miguel & Miorim, (2004, p. 94- 95), encontramos uma visão geral das críticas feitas a este tipo de abordagem da História da Matemática: a crença na possibilidade de explicar a origem e a natureza do conhecimento matemático sem recorrer ao problema da validação das verdades matemáticas; a reconstrução histórica das ciências feita por Piaget e Garcia para responder a uma necessidade interna da epistemologia genética defendida por esses autores que não explica o porquê das descontinuidades no processo de produção e circulação das idéias e, principalmente: “a crença na existência de um princípio transhistórico regulador, legislador, disciplinador e direcionador da marcha supostamente evolutiva das idéias matemáticas”.
Do mesmo modo, a noção de “obstáculo epistemológico”, criada por Gaston Bachelard (1884-1962) e importada por Guy Brousseau para a didática da Matemática, também traz implícita a visão recapitulacionista. Bachelard viveu como estudante, cientista, filósofo e professor numa época em que a concepção positivista de constatação dos modelos e teorias científicos pelos dados objetivos e experimentais foi abalada com os novos modelos da micro-física e da teoria da relatividade. A partir das conclusões retiradas de sua vivência durante esse rico período da história da ciência, apresentou em seu livro A formação do espírito científico, de 1938, uma periodização da história das ciências que a divide em três estados: o estado concreto, o estado concreto-abstrato e o estado abstrato. O estado positivo de Comte seria correspondente ao estado concretoabstrato de Bachelard, definido por este como o período em que aplicamos esquemas gerais aos fatos empíricos observados, partindo da experiência para a teoria que a explica. Para Bachelard, a filosofia positivista está ligada à ciência clássica, estando ultrapassada em relação às transformações que o saber científico sofreu. O estado abstrato afasta-se do empírico e busca na polemização da experiência esquemas racionais cada vez mais abstratos, que expressem o novo espírito científico de inventividade.
Para Bachelard, o conhecimento científico ocorre por meio da superação dos “obstáculos epistemológicos”, ou seja, obstáculos surgidos no ato de conhecer na forma de conflitos e lentidões que causam a estagnação e até a regressão no progresso da ciência, causados por conhecimentos antigos, que resistem às novas concepções para manter a estabilidade intelectual, sendo que um obstáculo de origem epistemológica é verdadeiramente constitutivo do conhecimento e pode ser encontrado na história do conceito. (Bachelard, s/d, p. 169). A noção de obstáculo epistemológico foi ampliada e introduzida na didática da Matemática por Brousseau com a conferência “Os obstáculos epistemológicos e os problemas em Matemática”, realizada no XXVIII encontro do CIEAEM em 1976 e publicada em 1983 no seu artigo de mesmo título. Em tal ampliação, ele caracteriza obstáculo epistemológico como um conhecimento utilizado pelo aluno para produzir respostas que se adaptam a certo contexto que o aluno encontra com freqüência, mas que usado fora desse contexto gera respostas incorretas. Como o aluno resiste às contradições produzidas pelo obstáculo epistemológico e ao estabelecimento de um conhecimento novo, é preciso identificar o obstáculo encontrado e incorporar a negação desse conhecimento anterior ao novo saber, sendo que mesmo depois de ter notado seu erro o aluno ainda pode manifestá-lo de forma esporádica (Brousseau, 1983, p. 175,176). A História da Matemática permitiria identificar os obstáculos epistemológicos superados na construção histórica de um conceito e os transformar em situaçõesproblemas que permitissem a reconstrução do conhecimento matemático, ou seja, seria uma fonte de busca de problemas. (Brousseau, 1983, p. 191, 192).
Entretanto, apesar de apontar para a ruptura e a descontinuidade e negar a evolução linear da ciência pregada pelo positivismo, a noção de “obstáculo epistemológico” continuou de certa forma servindo para se fazer o paralelismo entre a ontogênese e a filogênese, ao apresentar o pressuposto de que os mesmos obstáculos epistemológicos apresentados na produção histórica de um conceito seriam encontrados na prática educacional.

A História da Matemática como uma pintura:
A Perspectiva Sociocultural de autoria de Luis Radford, da Université Laurentienne do Canadá e de Fulvia Furinghetti, professora da Universidade de Genova, na Itália, enxerga o conhecimento matemático como resultante da negociação social de significados e a História da Matemática como uma fonte de experiências humanas que podem ser trabalhadas nas atividades didáticas em matemática, através de um diálogo com as práticas atuais e o contexto da época da produção do conceito. Para Radford, o conhecimento é concebido na perspectiva de Vigostsky, para quem a aprendizagem dos conceitos deveria ter origem na negociação de significados que decorre da atividade social do indivíduo e que é ligada ao seu meio cultural. O construtivismo de Piaget é abandonado e o conhecimento é relacionado diretamente às características sociais, históricas, materiais e simbólicas que marcam as atividades dos indivíduos. O problema nunca é um objeto por si próprio, mas sim resolvido e validado dentro da racionalidade e das crenças da cultura ao qual se liga.
Como exemplo, Radford (1997, 30) cita a emergência da matemática dedutiva dos gregos, que é frequentemente relacionada à organização política das cidades-estado gregas, baseadas na lei, que encorajavam os cidadãos a argumentar e debater. Ele critica esta leitura causal, mecanicista e behaviorista da matemática grega, afirmando que o estilo grego de debater e argumentar não é o determinante para suas concepções matemáticas e sim manifestação de toda uma cultura, desenvolvida pelo compartilhamento de significados de todas as atividades vividas por uma sociedade e que se manifestam na matemática, na arte e em outras manifestações semióticas. Radford e seu grupo assumem como pressupostos epistemológicos que o conhecimento é socialmente construído e ligado a ações necessárias para resolver problemas dentro do contexto sócio-cultural do período considerado, impossibilitando o paralelismo ontofilogenético, e rompem com as diferentes abordagens construtivistas da aprendizagem matemática, que separam a esfera do conhecimento das esferas culturais e educacionais. O significado real de um conceito do passado é inatingível, ele sempre será “filtrado” por nosso padrão de comportamento e por nossas modernas concepções sócio-culturais da história. (Radford, 1997, 27).
O conhecimento matemático é re-criado e co-criado pelo aluno através do uso de signos e do discurso, ou seja, o conhecimento matemático resulta da negociação social dos signos, é um processo lingüístico-semântico. A História da Matemática torna-se inspiradora de seqüências didáticas para o ensino-aprendizagem ao possibilitar a constituição dos contextos e circunstâncias de produção dos conceitos, das significações produzidas e negociadas na produção, circulação, recepção e transformação desse conhecimento. Nessa abordagem sociocultural, a investigação dos textos matemáticos de outras culturas busca examinar as práticas culturais nas quais eles estavam envolvidos e, através do contraste com as notações e conceitos que são ensinados hoje, perceber os tipos de exigência intelectual exigidas dos estudantes. As categorias semióticas encontradas nos diversos momentos da constituição de um conceito são trabalhadas na reinvenção de fórmulas, aumentando os níveis de generalização requeridos no enfrentamento dos problemas apresentados nas seqüências de ensino (Radford, Boero & Vasco, 2000, p. 164).
O projeto de Radford não pode ser interpretado como recapitulacionista, pois não há nenhuma pressuposição de subordinação do presente ao passado. A História da Matemática serviria como um ponto de partida para o desenho de novas atividades para que os estudantes, de forma ativa, recriassem significados e conceitos e co-criassem outros novos, agindo e pensando por meio dos conceitos, significados e ferramentas de sua cultura. (Radford, Boero & Vasco, 2000, p. 165). Radford (1997, p. 32) afirma que uma investigação histórico-epistemológica cultural também precisa demonstrar os modos de confrontação dos diferentes programas de pesquisa em certos momentos do desenvolvimento da matemática, não somente em relação aos aspectos cognitivos do programa vitorioso, mas também em relação aos valores e compromissos do contexto sociocultural desta confrontação.
A Perspectiva dos Jogos de Vozes e Ecos introduzida pelos investigadores italianos Paulo Boero, B. Pedemonte, E. Robotti e G. Chiappini adota o construto teórico de Jogos de Linguagem de Wittgenstein e o construto teórico Vozes de Bakhtin, para buscar na História da Matemática contradições entre as vozes históricas produzidas na sistematização do discurso teórico da matemática e as vozes dos estudantes. Para Boero e seu grupo a dificuldade de transmissão do conhecimento matemático na escola giraria em torno de problemas nos quais a linguagem desempenha papel central. A escola seria responsável pela transmissão das características próprias do conhecimento matemático que não são encontradas no cotidiano: a natureza teórica e sistemática; sua coerência interna; a natureza dos processos de validação desse conhecimento e a natureza específica da dimensão discursiva da linguagem matemática. A hipótese principal do grupo de Boero é a de que os Jogos de Vozes e Ecos podem permitir ao estudante alcançar um horizonte cultural difícil de construir na abordagem construtivista ao conhecimento teórico e também difícil de ser mediado através de abordagens tradicionais: concepções intuitivas, métodos experimentais distantes do horizonte cultural dos alunos e tipos de organização do discurso científico que não são partes naturais do discurso do estudante. Assim, Boero e seus colaboradores têm investigado a História na Educação Matemática para explicitar as características de um conteúdo matemático teórico e as condições histórico-culturais de sua emergência na busca de vozes, ou seja, dessas expressões verbais ou não que representam importantes saltos históricos na evolução da ciência e da Matemática. Essas vozes, se apropriadas e ressignificadas por outras pessoas produzem ecos, isto é, conexões estabelecidas entre diferentes vivências de pessoas de diferentes épocas e de diferentes culturas. Os ecos são multiplicados e aprofundados pela exploração em classe das vozes originais e dos ecos produzidos pelos alunos. Estes ecos renovam as vozes originais em termos de expressões e referências culturais e ao professor caberia mediar as vozes históricas que permitiriam ao aluno internalizar, através do diálogo, as características do conhecimento teórico e científico com suas características histórico-culturais próprias. (Boero, Pedemonte, Robotti, p. 6, 1997).
Do mesmo modo, acreditamos que entender a importância das crenças no processo de ensino e aprendizagem de matemática pode ser um dos caminhos para a integração da História da Matemática em Educação Matemática, como forma de ajudar a promover uma interlocução entre as diferentes culturas em diferentes épocas. Para Chacón (2003, p. 200), encontramos na sala de aula uma multiplicidade de culturas relacionada ao “mundo invisível de valores e crenças” do professor e dos alunos que interfere na qualidade da aprendizagem da matemática. Segundo essa autora, a perspectiva antropológica, ao propor a idéia de cultura como um conjunto de maneiras de pensar, sentir e agir compartilhadas por um grupo, possibilitaria uma intervenção no currículo que levasse em conta como a história pessoal e a história cultural do aluno afetam seu pensamento matemático e sua aprendizagem da matemática.
No Brasil, Ubiratan D’Ambrósio coordena um programa de pesquisa sobre geração, organização intelectual e social e difusão de conhecimento interculturais. No desenvolvimento de sua crítica da imposição da cultura do dominador aos povos indígenas, afro-americanos, não-europeus, trabalhadores oprimidos e classes marginalizadas, surgiu o termo etnomatemática. Para este autor, a disciplina que denominamos “matemática” seria na realidade uma etnomatemática, ou seja, a desenvolvida na Europa mediterrânea, com influências das civilizações indiana e islâmica e que adquiriu sua forma atual e seu caráter de universalidade a partir dos século XVI e XVII, com o desenvolvimento das ciências e tecnologias do modernismo. Assim, as características de precisão, rigor e exatidão teriam origens na Antiguidade grega e nos países centrais da Europa, principalmente Inglaterra, França, Itália e Alemanha, na Idade Moderna.
Contra a imposição da matemática eurocêntrica a alunos com raízes culturais diferenciadas, D’Ambrósio (2005) cita o ensino do sistema decimal a populações indígenas que sempre resolveram seus problemas com seus sistemas numéricos específicos. Também contesta a tentativa de afirmar que a “etnomatemática do branco” é mais eficiente que a “etnomatemática do índio”, afirmando que, ao removermos as questões do contexto de atuação de determinada etnomatemática elas se tornam falsas questões. O domínio de duas etnomatemáticas, conforme a concepção de D’Ambrósio, ofereceria novas possibilidades de enfrentamento de questões em seus contextos específicos: o índio ao aprender a matemática do branco poderia negociar em melhores 8 8 condições, por exemplo. Entretanto, note-se que não há a adoção da matemática do branco e sim uma nova aprendizagem sobre atuação em novos contextos, preservando e valorizando a cultura indígena.
Uma importante crítica feita à etnomatemática neste sentido é a de que não podemos nos preocupar somente com os conhecimentos próprios de cada cultura e sim em caminhar em direção ao conhecimento universalmente aceito, que garantirá a inserção social dos indivíduos. Assim, embora a etnomatemática possa considerar a matemática acadêmica como “hostil” às características culturais de determinados grupos, tal fato não justifica que a matemática formal não lhes deva ser apresentada. Concordamos com Rosa & Orey (2005, p. 133) quando esses autores afirmam que se a etnomatemática mantiver um direcionamento somente antropológico e etnográfico, levará pesquisadores e educadores a associarem-na a uma perspectiva folclorista e “primitivista”. Para esses autores, além de evidenciar o caráter cultural da matemática, a etnomatemática também deve proporcionar aos alunos uma ação pedagógica que conecte as diferentes práticas matemáticas com as práticas próprias da matemática acadêmica.
Em oposição ao defendido pelo “princípio genético”, estas abordagens da História da Matemática em sala de aula têm buscado retratar as feições próprias do conhecimento matemático, dependentes dos matizes sócio-culturais que influenciaram os diferentes períodos históricos. Assim, em nosso trabalho encaramos estas perspectivas como “pinturas”. Nelas, o conhecimento é concebido como uma prática culturalmente mediada, resultante das atividades nas quais as pessoas se engajam, dentro da racionalidade de cada cultura em consideração. A abordagem da construção de um conceito é vista de forma localizada em um determinado tempo e espaço, pertencentes a uma determinada cultura que não é uma imagem primitiva de nossa cultura e sim a realidade histórico-cultural de uma época. A História da Matemática passa a ser, então, tratada como um produto humano: carregada de valores e relativizada em relação aos pressupostos das condições sócio-culturais de sua produção, aceitação e divulgação.

Os múltiplos olhares na integração da História da Matemática na Educação Matemática:
Um dos pontos essenciais para a integração da História da Matemática na Educação Matemática está centrado no papel do professor: os valores que influenciam na sua visão da História da Matemática; suas preocupações com os fatores emocionais, sociais e culturais nos processos de aprendizagem; o grau de conhecimento histórico e 9matemático que ele possui; sua formação inicial e continuada e suas possibilidades de acesso à bibliografia especializada entre outros aspectos. Silva (2001) relaciona as funções da História da Matemática na formação de professores com as diferentes concepções de matemática. Para aqueles que vêem a Matemática como uma ciência pronta e acabada e o ensino como uma relação de dominação, a História da Matemática encontra pouco espaço no processo de ensino-aprendizagem. Em contrapartida, estudar a História da Matemática como uma das múltiplas manifestações culturais da humanidade torna o conhecimento matemático significativo e facilita o entendimento das relações entre este conhecimento e o homem, em um dado contexto cultural.
Bicudo & Garnica (2003) ao apresentarem as características dos textos matemáticos justificam a importância do conhecimento da História da criação de um conceito matemático para dar significado ao texto científico. A manifestação do discurso “científico” da Matemática é ligada principalmente à pesquisa e ao trabalho dos matemáticos profissionais, em seus grupos de discussão, aceitação e divulgação por meio de textos especializados que admitem a complementação e a circulação de idéias necessárias à produção continuada e cumulativa do conhecimento. O texto científico escrito é formal e precisa ser complementado na apresentação ao grupo de especialistas que o valida com explicações orais sobre sua gênese, não incluída no texto escrito, por meio do uso da língua materna. Já o discurso pedagógico é rico em formas de apresentação, nas quais interagem posturas, metodologias, didáticas, textos escritos e falados para a comunicação do conhecimento já solidificado, disponível e reproduzido, em um modo quase-formal.
Para Valente (2001, p. 218) teríamos a possibilidade de entender com maior nitidez as práticas do fazer matemático por meio de um estudo histórico da profissionalização do meio matemático, da análise da estruturação didática que orienta o campo intelectual da produção matemática e da contribuição das atividades didático-pedagógicas ao desenvolvimento das práticas matemáticas Assim, uma possível reescrita da História da Matemática deveria abordar o contexto cultural da produção e da circulação dos conhecimentos matemáticos, incluindo a Matemática Escolar como uma das formas de apropriação e reelaboração da prática matemática.
Desse modo, acreditamos ser de importância fundamental a preparação do professor para uma compreensão mais profunda de sua própria prática e lamentamos encontrar nos estudos sobre a presença da História da Matemática na formação de professores a constatação de que essa disciplina não tem recebido a atenção que julgamos necessária.
Segundo Silva (2001, p. 144), a disciplina de História da Matemática só foi tornada obrigatória no Instituto de Matemática da USP em 1968, apesar de estar prevista no currículo desde 1934, data de criação do curso de Matemática. A oferta desta disciplina passou por sérias dificuldades, como a ausência de bibliografia em língua portuguesa e a falta de professores preparados para ministrá-la. Ainda de acordo com Silva (2001, p. 147), os cursos que hoje oferecem essa disciplina diferem significativamente em relação aos conteúdos de suas ementas, à bibliografia adotada, à carga horária e aos pré- requisitos estabelecidos. Além disso, embora no Brasil a maior parte das Instituições de Ensino Superior seja privada, a disciplina de História da Matemática é mais frequentemente oferecida nas universidades públicas e, mesmo que já exista um número razoável de obras sobre História da Matemática publicadas em português e espanhol, muitas estão esgotadas e o leitor em geral tem dificuldades de acesso à bibliografia especializada. Por outro lado, embora temas específicos sobre História da Matemática estejam incluídos na avaliação nacional dos cursos de graduação do país, o provão, e existam recomendações nos atuais Parâmetros Curriculares Nacionais do MEC para que os professores apresentem os conceitos em uma visão histórica, contraditoriamente a História da Matemática não está incluída nos conteúdos mínimos exigidos pelo MEC para os currículos de Matemática.
Como sugestões para a formação inicial ou continuada de professores em História da Matemática, Silva (2001, p. 160) sugere o trabalho cooperativo entre o professor de Matemática e o de História ou Filosofia para superar as dificuldades metodológicas no trabalho com fontes primárias, análise de dados, tratamento de informações etc.; a realização de seminários e pesquisas com fontes primárias; a vivência de atividades aplicáveis na prática de sala de aula; a apresentação de referências bibliográficas para o estudo da História da Matemática e a discussão sobre estratégias para a utilização de fontes primárias.
O trabalho com fontes originais pode propiciar uma amplo trabalho com a História da Matemática em sala de aula: a construção de significados, a contextualização, a interdisciplinaridade, a construção dos conceitos etc. Para trabalhar com fontes originais precisamos fazer uma análise do contexto em que aquelas idéias surgiram e criar um paralelo entre a linguagem matemática atual e a usada na época. Deste modo, ler as fontes primárias auxilia entender as idéias trazidas pelos materiais secundários, descobrir novas ligações entre as idéias, discernir os cursos da história de um tópico, muitas vezes omitido nas fontes secundárias, e colocar em perspectiva algumas interpretações, julgamentos de valor e até falsas apresentações encontradas na literatura. Entretanto, as atividades de trabalho com fontes originais demandam muito tempo e por esta razão o esforço que elas demandam em educação matemática deve ser bem avaliado.
Para Schubring (1997, p. 157) quando introduzimos elementos históricos na sala de aula por meio dos textos originais ou de biografias de matemáticos ilustres estamos fazendo uma abordagem direta da História da Matemática em sala de aula. Na abordagem direta a descoberta dos conceitos é apresentada em toda a sua extensão e a legitimação para seu uso é baseada nas possibilidades de aumentar o interesse dos alunos e motivá-los para o estudo da Matemática. A abordagem indireta aconteceria quando se apresentasse uma análise da gênese dos problemas, dos fatos e das demonstrações envolvidos no momento decisivo dessa gênese. Ainda de acordo com Schubring (1997, p. 58), a abordagem indireta na formação de professores favorece a constituição de um metasaber capaz de contribuir para uma melhor orientação dos processos pedagógicos. Além disso, pode servir como base para a compreensão do desenvolvimento da matemática não como uma concepção continuísta e cumulativa, mas com fases alternadas de continuidade e rupturas. Esse meta-saber também contribui para a visão das diferenças epistemológicas e conceituais do desenvolvimento da matemática nas diferentes culturas e sociedades e para se reconsiderar o papel dos erros como reveladores de todos os fatores já mencionados: a limitação dos valores dominantes em uma comunidade matemática, a indicação de rupturas, de desenvolvimentos não contínuos e da importância de concepções epistemológicas.
Acreditamos que esse modo de integrar a História da Matemática em sala de aula se aproxima da proposta de Miguel & Miorim (2004) sobre a constituição do meta-saber do professor por meio das “histórias pedagogicamente vetorizadas”. (Miguel & Miorim, 2004, p. 156). Para estes autores uma história pedagogicamente vetorizada é uma história que parte dos problemas da cultura matemática da escola, do modo como as idéias matemáticas se constituíram e se transformaram no interior das práticas escolares em conexão com as outras práticas sociais em outros contextos institucionais, contrapondo uma tendência tecnicista e neutra da abordagem da cultura matemática a uma discussão dos problemas de natureza ética envolvidos nas diversas práticas sociais da Matemática. Na concepção de Miguel & Miorim (2004, p. 156), as problematizações lançadas na formação dos professores partem de práticas pedagógicas do presente e são feitas pensando nos estudantes de licenciatura e nos futuros alunos desses estudantes, não se preocupando em acrescentar à abordagem lógica uma abordagem histórica de natureza factual. Ao contrário, a historiografia é vista como uma fonte de diálogo que estabeleça novas relações, respostas múltiplas e possibilidades para as respostas que procuramos no presente, mostrando as relações de poder nas diversas práticas sociais envolvidas na constituição, apropriação, ressignificação e transmissão do tema ou problema em estudo. Os autores justificam a importância de um trabalho com essas preocupações como uma forma de através do ato educativo, inclusive do futuro professor, preparar os sujeitos sociais para a inserção na vida social pública como representantes e atores de diferentes comunidades que participam do processo de constituição da Matemática e da Educação Matemática
Conclusões:
Acreditamos que a Matemática revela novos modos de pensar que enriquecem o intelecto humano. Mais que uma disciplina de estudo, ela é um patrimônio da humanidade, o resultado do esforço coletivo dos homens e mulheres que de alguma maneira lhe deram forma, a transmitiram e a enriqueceram. Partilhar esse conhecimento é, além de função da educação, um dos sentidos da vida em sociedade: é participar da distribuição dos vários tipos de bens comuns, construídos na busca da sublimação, da evolução, de aperfeiçoamento. Uma concepção de educação que valorize as dimensões emocionais, psicológicas, cognitivas e sociais do aluno deve se ligar às possibilidades que a Matemática pode oferecer ao homem de expandir sua compreensão sobre o mundo que o rodeia, sobre sua capacidade de lidar com os conhecimentos matemáticos, sobre as conexões da Matemática com as outras ciências e, principalmente, sobre seu direito de conhecer Matemática independentemente de suas opções profissionais ou estudantis. Nesses termos, ao enxergamos a Matemática como uma produção cultural, tacitamente assumiremos que a História da Matemática não é um reflexo imediato do que foi a realidade de uma época, a ser “usado” em sala de aula como uma forma de reproduzir a elaboração de um conceito ou de apresentá-lo. Ao contrário, vemos na História da Matemática a possibilidade de trabalhar a re-criação, ou a re-descoberta, de um conceito em sala de aula a partir da discussão sobre a objetividade e a validade universal da Matemática em relação à sua produção histórica social e culturalmente determinada, às negociações de significados envolvidas nos diversos contextos sociais e às mudanças conceituais ocorridas no decorrer do tempo.
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quarta-feira, 7 de março de 2018

Etnomatemática - 21/03/2018

Abordagens Atuais do Programa Etnomatemática: delineando um caminho para a ação pedagógica
Milton Rosa
Daniel C. Orey

Resumo
Apresentamos, neste artigo, as abordagens atuais para o programa etnomatemática, fundamentadas em estudos direcionados à perspectiva antropológico-etnográfica e à ação pedagógica.
No contexto atual, existe uma grande necessidade de que o programa etnomatemática seja identificado como um programa que busca as práticas de ensino-aprendizagem em matemática, as quais estão direcionadas à ação pedagógica.
Acreditamos que o grande desafio para os pesquisadores é elaborar estudos e práticas pedagógicas que estejam de acordo com os objetivos filosófico-teóricos deste programa. Assim, delineamos uma proposta curricular baseada no trivium literacia, materacia e tecnocracia, que permite desenvolver atividades escolares alicerçadas na perspectiva etnomatemática.
Palavras Chaves:
Ação Pedagógica. Etnomatemática. Práticas Pedagógicas. Currículo. Matematização

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Educação estatística e educação infantil - atividade em 23/05/2018

Dada a necessidade de grande parte do grupo ausentar-se da aula no dia 23/05 devido às atividades de campo do estágio supervisionado, nesta ...